Etanol tem aditivo premium, mas o mercado o precifica como gasolina comum, diz presidente do IBIO
Em palestra ao Conselho do Agronegócio da ACSP, Plínio Nastari defendeu que o combustível brasileiro está subvalorizado; apenas 29% da frota flex nacional usa o produto, mesmo em regiões onde ele é mais barato
Foto: Participantes da palestra reunidos | Créditos: Kiko F. / DC
Enquanto o país discute o percentual ideal de etanol na gasolina, Plínio Nastari, presidente do Instituto Brasileiro de Bioenergia e Bioeconomia (IBIO) e fundador e CEO do Grupo Datagro, propôs uma pergunta diferente em palestra ao Conselho do Agronegócio (AC/Agro) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), aberta pelo presidente da entidade, Alfredo Cotait Neto, nesta quinta-feira (27): quanto o etanol realmente vale?
O combustível tem octanagem de 116, ante 87 da gasolina pura. Essa vantagem técnica, argumentou Nastari, equivale à do tolueno, aditivo que no mercado internacional chega a valer de 30% a 40% a mais do que a gasolina. O etanol brasileiro, no entanto, é precificado abaixo desse patamar porque compete diretamente com a gasolina, e não pelo que entrega em qualidade de combustão. A mistura também permite o uso de uma gasolina base de menor octanagem e mais barata, o que amplia a economia repassada ao consumidor.
Foto: Alfredo Cotait Neto | Créditos: Kiko F. / DC
Divulgação 1
Na abertura da palestra, o líder do sistema do associativismo e presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alfredo Cotait Neto, reforçou a aproximação entre a ACSP e o agronegócio.
Na comparação internacional, o Brasil ocupa posição de destaque em matriz energética renovável: 49,5% da oferta interna de energia do país vem de fontes limpas, ante média mundial de 14,5%. Estados Unidos e China registram índices abaixo de 10%. A Alemanha está em 22%, e a Noruega, com economia bem menor, em 55%.
O padrão se repete na frota de veículos. O país vende hoje 39% de automóveis movidos a biocombustível e tem 35% da frota total classificada como limpa, à frente de Noruega, Alemanha e França. Segundo o especialista, um veículo a etanol hidratado emite, ao longo do ciclo de vida, volume de CO2 próximo ao de um elétrico alimentado pela matriz brasileira, sem o custo ambiental da mineração associada às baterias.
Falhas de informação
Foto: Dr. Plínio Nastari | Créditos: Kiko F. / DC
Ainda assim, o uso do etanol hidratado permanece abaixo do potencial: 29% da frota flex utiliza o combustível hoje, ante pico histórico de 41,5%, mesmo em estados onde o preço é mais vantajoso. Nastari atribuiu o descompasso a falhas de informação, orientações equivocadas de concessionárias e postos, e a distorções regulatórias. Segundo ele, o governo federal concede subvenção apenas à gasolina, o que amplia artificialmente a diferença de preço na bomba.
O executivo também mapeou fronteiras de expansão além do uso automotivo: combustível sustentável de aviação, biobunker para transporte marítimo, reforma do etanol para geração de hidrogênio e adoção em máquinas agrícolas pesadas, tecnologia já em desenvolvimento por fabricantes como Bosch, John Deere, Case, Agco e Cummins. A demanda global adicional pelas novas frentes pode superar 700 milhões de toneladas até 2050, ante os cerca de 100 milhões produzidos hoje no mundo.
Há também impacto regional mensurável, segundo estudo citado na palestra: municípios que recebem usinas de etanol registram aumento médio de renda de US$ 1.098 por hectare, efeito que se estende aos 15 municípios vizinhos mais próximos, com ganho médio de US$ 457 por hectare.
Sobre a ACSP
Fundada em 1894, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) é a maior associação empresarial do Brasil, com 132 anos de história e mais de 15 mil associados. Sob a presidência de Alfredo Cotait Neto, maior liderança do associativismo empresarial brasileiro, a entidade é a principal voz do empreendedor nacional na defesa da livre iniciativa.
A ACSP tem protagonismo direto na construção do marco legal do empreendedorismo no país: foram criados ou impulsionados pela ACSP o Estatuto da Micro e Pequena Empresa, o Simples Nacional, o Microempreendedor Individual (MEI), a Lei da Liberdade Econômica, o Impostômetro e, em parceria com a CACB, o Gasto Brasil.
A OESP não é(são) responsável(is) por erros, incorreções, atrasos ou quaisquer decisões tomadas por seus clientes com base nos Conteúdos ora disponibilizados, bem como tais Conteúdos não representam a opinião da OESP e são de inteira responsabilidade da Associação Comercial de SP