Releases 25/08/2026 - 14:25

Sem regras iguais para todos, importação ameaça indústria nacional de pneus


Setor pede medidas para assegurar competição justa a fim de evitar a perda de investimentos, empregos e capacidade produtiva.

A entrada de importados, especialmente vindos da Ásia, está desorganizando a produção de pneus no Brasil e ameaça investimentos, empregos e toda a cadeia de fornecedores que atuam no setor, alerta a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip).

Segundo a entidade, a indústria brasileira de pneus, que reúne as maiores fabricantes mundiais, viu sua participação no mercado se inverter em poucos anos. Em 2019, os fabricantes instalados no País respondiam por cerca de 70% das vendas do mercado de reposição. Hoje, ocupam perto de 30%.

No primeiro semestre de 2026, a indústria nacional comercializou 17,8 milhões de pneus, ante 19,1 milhões no mesmo período do ano passado. No mesmo intervalo, as importações cresceram 81,2%.

Rodrigo Navarro, presidente da Anip, diz que as distorções de mercado precisam ser corrigidas para garantir uma competição saudável no setor. Segundo a entidade, parte dos produtos importados chega ao Brasil por valores incompatíveis com os custos praticados no mercado internacional, em alguns casos abaixo até do preço das matérias-primas.

O governo federal já abriu mais de dez ações antidumping relacionadas a diferentes tipos de pneus e países de origem. Esses processos, porém, são lentos e, quando uma medida é aplicada contra determinada origem, a mercadoria passa a entrar por outro país e uma nova apuração precisa começar.

Regras desiguais

A Anip afirma que não se opõe às importações. O problema, segundo a entidade, surge quando os participantes não seguem as mesmas exigências comerciais, técnicas e ambientais.

Uma das distorções está nas regras ambientais. A legislação determina que fabricantes e importadores recolham os pneus ao fim da vida útil e garantam sua destinação adequada. Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), no entanto, mostram que o conjunto dos importadores não atinge integralmente as metas de logística reversa há 15 anos seguidos. O passivo acumulado chega a cerca de 500 mil toneladas, enquanto a indústria nacional investiu R$ 1,8 bilhão no recolhimento e na destinação desses materiais e supera a meta exigida.

Efeito dominó

A Anip reúne 11 empresas, responsáveis por 19 fábricas em 7 Estados brasileiros. Nos últimos 5 anos, essas unidades receberam R$ 8 bilhões em investimentos e estão previstos outros R$ 5 bilhões para o próximo ciclo. Com a perda de mercado, parte desses investimentos e projetos, atuais e futuros, está passando por revisão. "O Brasil precisa decidir se quer ter uma indústria forte, que gera emprego, renda, investimentos e consome matérias-primas locais, ou se prefere exportar empregos para a Ásia", diz Navarro.

O setor já registra férias coletivas, paralisações temporárias de linhas e demissões por conta da crise dos importados. A ameaça também alcança fornecedores de aço, produtos químicos, materiais têxteis e borracha natural. Cerca de 80% da produção brasileira de borracha é absorvida pelas fabricantes de pneus. Com a redução das encomendas, produtores começam a substituir seringais por outras culturas. "Se perdermos a soberania na borracha e no pneu, qualquer turbulência externa terá um impacto muito grande para o País", alerta Navarro.

Defesa comercial

Entre as medidas levadas ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a Anip pede o retorno da adoção do licenciamento não automático para pneus; o uso de preço referência internacional para verificar se os produtos que chegam ao País estão em linha com valores praticados no mundo; maior agilidade nos processos antidumping; a aplicação de direitos provisórios durante as investigações; e a equalização da tarifa de importação para pneus de passeio de 25% para 35%, como já fizeram EUA, México e União Europeia. A entidade também apresentou ao governo um manifesto apoiado por mais de 45 entidades representativas do ecossistema produtivo e um estudo da LCA Consultoria que mostra que os ajustes teriam impacto irrelevante de 0,005 ponto porcentual sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A demora do governo em adotar as medidas defendidas pela indústria pode comprometer empregos, investimentos, inovação e todo um ecossistema estratégico para o País. “O Brasil precisa assegurar competição justa no mercado. Nós e outros setores da economia estamos em risco”, conclui o presidente da Anip.