Releases 22/09/2026 - 10:53

Câncer colorretal expõe distância entre alerta e ação


Pesquisa mostra que 80% dos brasileiros reconhecem a gravidade de sinais da doença, mas 40% dos que já perceberam sangue nas fezes não buscaram atendimento imediato

Reconhecer um sinal de alerta não significa, necessariamente, agir diante dele. Essa distância aparece em pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center, realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, que ouviu 2.015 pessoas no País. O levantamento mostra que 80% dos brasileiros consideram grave a presença de sangue nas fezes ou uma alteração no funcionamento intestinal por mais de um mês. Entre os que já notaram sangue nas fezes, porém, 40% não procuraram atendimento imediatamente.

A urgência do tema se reflete nos números: o câncer colorretal já ocupa as primeiras posições entre os tumores mais incidentes no Brasil, em homens e mulheres no País. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 53.810 novos casos por ano no triênio 2026-2028¹. O contraste esteve no centro do Brand Talk - Câncer Colorretal: entre a prevenção e o diagnóstico, realizado no Retratos do Câncer, com o cirurgião oncológico Samuel Aguiar, líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C.Camargo Cancer Center, e mediação da jornalista Camila Silveira.

Com mais de 70 anos de atuação e referência internacional em oncologia, o A.C.Camargo Cancer Center é formado por inovação, assistência, pesquisa e ensino, e integra prevenção ao diagnóstico, passando pelo tratamento, reabilitação e vida pós-câncer.

Sinal sem ação

“A percepção da gravidade não tem se traduzido em uma ação de busca de um diagnóstico”, afirmou Aguiar. Para o especialista, esperar pelo aparecimento de sintomas já representa uma oportunidade perdida, porque o rastreamento busca identificar alterações antes que elas se manifestem.

A demora em procurar ajuda não pode ser atribuída apenas ao comportamento individual. Segundo o médico, falta de tempo e dificuldades de acesso aos serviços de saúde também interferem no caminho até a investigação.

“Não é só culpa do indivíduo. Existe uma série de barreiras também dentro da estrutura da saúde brasileira, seja pública ou privada, que dificultam o acesso ao diagnóstico de um sintoma importante”.

Dr. Samuel Aguiar, cirurgião oncológico e Líder do Centro de Referência de Tumores Colorretais do A.C.Camargo Cancer Center

Para o cirurgião oncológico, reconhecer os sinais de alerta é o primeiro passo. São eles: sangramento nas fezes, mudança persistente no ritmo intestinal, dor abdominal contínua e perda de peso sem causa aparente. “Nenhum desses sinais deve ser ignorado ou normalizado, principalmente quando persistem por mais de algumas semanas”, afirma Dr. Samuel.

A pesquisa revela diferenças nesse percurso. A busca imediata por atendimento é maior entre pessoas com melhores condições financeiras, brasileiros acima dos 60 anos e moradores do Sudeste. As mulheres também procuram ajuda mais rapidamente do que os homens.

Aguiar também chamou a atenção para o aumento de diagnósticos entre pessoas mais jovens.

As causas ainda são investigadas, embora mudanças no estilo de vida estejam entre as hipóteses estudadas. “A pergunta ainda está em aberto”, afirmou Aguiar. O especialista citou fatores já conhecidos, como “dieta desbalanceada, sedentarismo, obesidade, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, tabagismo e bebidas açucaradas”, além de mudanças na microbiota intestinal.

Por isso, a recomendação do especialista é clara: a prevenção deve começar aos 45 anos para a população em geral ou antes, para quem tem histórico familiar da doença. “Quanto antes a pessoa entender seu risco e iniciar o rastreamento, maior a chance de intervir antes que um sintoma apareça”, explica Aguiar.

Rastrear antes

Outra lacuna aparece no conhecimento sobre prevenção: 67% dos brasileiros nunca ouviram falar da Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes e apenas 11% afirmaram já ter realizado o exame.

Segundo Aguiar, a incorporação do teste imunoquímico fecal, o FIT, ao rastreamento no Sistema Único de Saúde (SUS) representa um avanço importante. Para o especialista, estratégias que convidam ativamente a população tendem a ser mais efetivas do que esperar
que o exame seja oferecido durante uma passagem pelo serviço de saúde.

O sucesso dessa ampliação também depende de investimento conjunto na capacidade de investigação dos resultados positivos. “O rastreamento de pessoas sem sintomas não pode concorrer com quem já está com sintoma esperando para fazer uma colonoscopia”, explicou.

Fazer chegar

É nesse esforço que se insere o Missão Colorretal, iniciativa do A.C.Camargo que pretende apoiar municípios na implantação de programas estruturados de rastreamento, ampliando o acesso da população em geral aos exames antes que a doença se manifeste. O projeto deve começar por Guarulhos, na Grande São Paulo, com o mapeamento de barreiras, capacidade de exames e fluxos de atendimento.

“O Missão Colorretal tem esse objetivo ousado de um dia ver a queda da mortalidade, mas tem vários pequenos projetos para chegar a esse objetivo final”, explicou Samuel. Segundo ele, a primeira etapa será justamente entender onde estão as lacunas para estruturar o rastreamento. Para Aguiar, chegar antes também reduz a complexidade do tratamento.

“Remover um pólipo é muito melhor do que ter o desafio de tratar um tumor”, resumiu.

Para quem já percebe algum sinal de alerta, a recomendação é clara: não esperar. Buscar avaliação especializada é fundamental para investigar possíveis alterações e agir de forma imediata. No A.C.Camargo Cancer Center, o Centro de Referência de Tumores Colorretais reúne profissionais em uma equipe multidisciplinar que inclui cirurgiões, oncologistas clínicos, profissionais de endoscopia digestiva, radiologistas, entre outros.

Referência Bibliográfica

¹Instituto Nacional de CâncerR