Meet Point Estadão Think discutiu como comunicação, inovação e economia circular podem aproximar os sistemas alimentares sustentáveis do dia a dia do consumidor.
A sustentabilidade ganhou status de consenso, mas ainda não virou compreensão prática. Uma pesquisa da Ajinomoto do Brasil em parceria com a Nexus indica que 50% dos brasileiros já ouviram falar em sistemas alimentares sustentáveis, enquanto 80% desconhecem selos e certificados ligados à qualidade e à sustentabilidade de produtos.
O retrato, que ajuda a explicar por que a pauta avança mais rápido nos fóruns técnicos do que na rotina do consumidor, foi o pano de fundo do Meet Point Estadão Think “Do campo à mesa: os desafios da indústria de alimentos em sistemas alimentares”, mediado pela jornalista Camila Silveira, com a participação de César Augusto Vilela, diretor de Food Ingredients e Agronegócios da Ajinomoto do Brasil.
Vida cotidiana
Segundo Vilela, o obstáculo não está na rejeição ao tema, mas em seu encaixe na vida real. “O consumidor, de um modo geral, está preocupado com as coisas do dia a dia”, afirmou. Para o executivo, quando o assunto aparece como algo distante, vira um “conceito abstrato”. Em seu ponto de vista, a saída passa por atitudes reconhecíveis, do descarte correto à valorização de práticas responsáveis. “Temos que promover esse debate para que o consumidor consiga entender o tema e ter ações práticas”, acrescenta.
A própria pesquisa reforça essa leitura: quando se explica o conceito, 60% dos entrevistados consideram a ideia importante. Já a relevância cresce quando é conectada ao futuro do planeta: 68% avaliam a sustentabilidade na produção e no consumo de alimentos como extremamente ou muito relevante.
Metas ambientais
A Ajinomoto do Brasil busca sustentar esse discurso com compromissos mensuráveis. Desse modo, atua de forma ativa em sistemas alimentares sustentáveis no País. O compromisso se traduz em ser uma empresa que não foca apenas em sua produção, mas que regenera. Para isso, apresenta metas claras: reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2030 e ter uma cadeia de suprimentos 100% sustentável para matérias-primas críticas. A organização entende que a lucratividade e o compromisso climático não estão em eixos opostos. São, na verdade, os dois pilares que sustentarão a indústria alimentícia no futuro próximo.
Modelo circular
Durante a conversa, o executivo detalhou o Biociclo, modelo circular adotado pela empresa que reaproveita coprodutos e devolve parte do valor ao campo. De acordo com Vilela, a cana-de-açúcar entra como principal matéria-prima: o caldo fermenta, os aminoácidos são extraídos e, quando a extração deixa de compensar, o que sobra vira base para fertilizantes. “Esses aminoácidos são aplicados de volta na cultura de cana-de-açúcar e, depois, nós a recompramos. Então, temos uma economia circular”, explicou.
Ciência aplicada
A conversa também abordou a AminoScience, a ciência dos aminoácidos, abordagem científica utilizada pela empresa para desenvolver soluções voltadas à redução de impacto ambiental e à melhoria nutricional dos alimentos. Conforme explicação do executivo, a aplicação dessa ciência permite, por exemplo, reduzir até 37% o teor de sódio de receitas com o uso do glutamato monossódico, aminoácido responsável pelo gosto umami que é a base do realçador de sabor AJI-NO-MOTO®, sem comprometer o sabor. O desafio, segundo Vilela, está em traduzir essa inovação técnica em linguagem acessível, para que o consumidor compreenda como as escolhas industriais podem impactar de forma positiva a saúde e contribuir com a redução do desperdício de alimentos.
Eficiência prática
A ideia de que sustentabilidade e produtividade caminham em sentidos opostos, no entendimento de Vilela, não se sustenta quando o desperdício entra na conta. “Você pode lucrar e não desperdiçar”, afirmou. No campo, a empresa utiliza a AminoScience para desenvolver fertilizantes que regeneram o solo. Na indústria, aplica a mesma inovação para reduzir o desperdício em suas operações. Para o consumidor, entrega produtos que permitem escolhas mais saudáveis, como a redução de sódio sem perda de sabor. Assim, consegue tornar a sustentabilidade algo tangível e prático.
Entraves externos
Se dentro da indústria o esforço mira metas e processos, fora dela o País ainda cobra caro em gargalos. Para o executivo, a comunicação aparece como entrave recorrente: explicar por que um produto custa mais e quais ganhos ambientais estão embutidos. Em sua visão, avançar em sistemas alimentares sustentáveis exige que inovação e educação do consumidor caminhem de forma integrada, para que os ganhos ambientais e produtivos se traduzam, de fato, em escolhas acessíveis à população.