Programa estadual organiza etapas de documentação, inscrição, preparação, apoio nos dias de prova e orientação para ingresso nas instituições de ensino superior.
Chegar ao ensino superior exige mais do que fazer uma prova. Para muitos jovens da escola pública, esse caminho passa por etapas que começam antes do Enem (Exame Nacional, do Ensino Médio), como ter documentação em dia, solicitar isenção da taxa, concluir a inscrição corretamente, preparar-se ao longo do ensino médio, comparecer aos dois dias de exame e saber como usar a nota depois.
No Ceará, esse percurso vem sendo estruturado como parte de uma estratégia de acesso à universidade. Só em 2025, 27.690 estudantes da rede estadual ingressaram em instituições de ensino superior. O movimento acompanha a mobilização da rede estadual em torno do Enem, uma das principais portas de entrada para a universidade. Em 2025, o Ceará conquistou outro número importante: foi destaque nacional na participação de estudantes concluintes da rede pública no exame, com 96,87% de inscritos, totalizando 104.250 estudantes.
Enem Chego Junto, Chego Bem: como funciona
Uma das principais iniciativas da rede estadual nesse percurso é o Enem Chego Junto, Chego Bem, implementado desde 2012. O programa atende estudantes da 3ª série do ensino médio e dos anos finais da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e propõe ampliar as condições de acesso às instituições de ensino superior por meio de ações que acompanham o aluno em diferentes momentos da jornada. O programa orienta os estudantes sobre o uso correto do sistema do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (o Inep) para garantir inscrição e participação, além de reforçar a preparação pedagógica ao longo do processo.
Esse percurso é dividido em sete etapas: documentação, isenção da taxa, inscrição, motivação, preparação, presença nos dois dias de prova e ingresso. A primeira busca garantir que os alunos tenham documento oficial com foto e CPF. Em seguida, a rede se mobiliza para apoiar a solicitação de isenção da taxa, a inscrição no exame, o engajamento dos estudantes, o suporte didático e a orientação sobre as formas de acesso ao ensino superior.
A lógica do programa parte da ideia de que o Enem não se resume aos dois domingos de aplicação da prova. A ausência de documento, a perda do prazo de isenção ou uma inscrição feita de forma incorreta podem impedir a participação do estudante antes mesmo do exame. Da mesma forma, a falta de orientação sobre o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e outras formas de ingresso pode dificultar o aproveitamento da nota conquistada.
#Enemvoudoisdias: apoio para chegar à prova
Nos dias de aplicação do Enem, a mobilização também envolve medidas para viabilizar o deslocamento dos alunos da rede pública estadual. No interior, a ação inclui parceria com secretarias municipais de Educação para condução dos inscritos nos dois dias. Também são contratados ônibus onde há necessidade.
Os candidatos contam ainda com tendas de apoio em pontos estratégicos dos municípios e recebem kits com alimentos, canetas e água, dentro da iniciativa #Enemvoudoisdias.
Nesse contexto, o deslocamento deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a integrar a estratégia de acesso ao exame. A proposta é reduzir obstáculos práticos que poderiam comprometer a presença dos estudantes, especialmente em regiões onde a distância, o custo do transporte ou a falta de apoio no dia da prova podem interferir na participação.
Permanência também entra na estratégia
A preparação para o Enem não se limita ao período próximo à prova. Ela depende de condições que sustentem a trajetória do aluno ao longo do ensino médio, da permanência na escola ao acesso a recursos de estudo.
Com 773 escolas e 379.616 alunos, a rede estadual cearense também tem ampliado a oferta de ensino em tempo integral. Em 2026, 613 unidades funcionam nesse modelo, o equivalente a 88,5% das escolas aptas a adotá-lo. Ao todo, 199.536 estudantes estão matriculados em tempo integral.
Ao ingressar no ensino médio da rede pública estadual, cada estudante também recebe um tablet com chip de internet. De 2024 a 2025, foram adquiridos 338.072 aparelhos, com investimento total de R$ 149,5 milhões. Para 2026, a previsão é de 100.854 equipamentos para estudantes da 1ª série, com investimento de R$ 81,4 milhões.
Outra frente de atuação é o Pé-de-Meia, programa federal de incentivo financeiro voltado a alunos do ensino médio da rede pública beneficiários do CadÚnico. No Ceará, 272.234 estudantes da rede pública estadual foram beneficiados em 2025.
Na prática, tempo integral, conectividade e incentivo financeiro compõem uma rede de apoio que busca sustentar o percurso até a universidade. As ações atuam em dimensões complementares: a pedagógica, com a ampliação da jornada escolar; a tecnológica, com acesso a equipamentos e internet; e a socioeconômica, com apoio à permanência do estudante na escola.
Próximos desafios
Apesar dos avanços no acesso, a vulnerabilidade socioeconômica ainda é uma barreira para parte dos estudantes da rede pública. A necessidade de trabalhar, contribuir com a renda familiar ou lidar com dificuldades de permanência pode afetar a trajetória escolar antes mesmo da chegada ao ensino superior.
Por isso, ampliar o número de alunos que fazem o Enem e ingressam na universidade é apenas parte do desafio. O caminho também envolve manter os jovens na escola, fortalecer a aprendizagem ao longo do ensino médio e garantir que a chegada ao ensino superior possa se transformar em permanência e conclusão da formação.