Releases 17/10/2016 - 17:40

Médico venezuelano é preso em Manaus ao aliciar brasileiras para fazer cirurgia plástica fora do país


São Paulo, SP.--(DINO - 17 out, 2016) - Foi preso em flagrante no último sábado, 15, em Manaus (AM), o médico venezuelano José Gregório Alvarez Sabino, de Porto Ordaz, por exercício ilegal da profissão no Brasil. A Polícia Civil flagrou Sabino, que é urologista, realizando consultas em um hotel na capital amazonense, com o intuito de aliciar brasileiras para fazerem procedimentos estéticos na Venezuela. Sabino pretendia encaminhar essas pacientes para sua clínica na cidade que está sendo considerada a Meca do Turismo Estético na Venezuela: Porto Ordaz.

A ação foi motivada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) em parceria com a Secretaria de Justiça e Segurança Pública, Ministério Público do Amazonas, OAB-AM e Polícia Civil, após denúncias recebidas a partir das ações da SBCP para alertar autoridades e população sobre os procedimentos realizados no país vizinho por médicos que não tem formação em cirurgia plástica, como Sabino, deixando sequelas irreversíveis em muitas mulheres e levando outras a morte. Estas ações têm conscientizado a população e mais denúncias têm chegado.

Na véspera da prisão, foi assinado um documento para a criação de uma comissão que deve apurar denúncias envolvendo suspeita de tráfico de órgãos. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), Ordem dos Advogados do Brasil seccional Amazonas (OAB-AM), Associação Médica Brasileira (AMB), Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), Ministério Público do Estado (MPE-AM) e da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) assinaram o documento.

Para o presidente da SBCP, Luciano Chaves, as duas ações (assinatura do documento e prisão) são respostas às inúmeras denúncias realizadas pela Sociedade para evitar que mais vítimas sejam feitas. "Essa prisão é um avanço, mas ainda há muito a ser feito. Dezenas de mulheres embarcam em vans e ônibus todas as semanas, inúmeras páginas em redes sociais iludem mulheres e o número das vítimas só aumenta", explica o presidente.

TURISMO DA BELEZA

As denúncias da SBCP começaram no início do ano, após tomar conhecimento de que brasileiras residentes no norte do Brasil estavam sendo aliciadas para realizarem cirurgias plásticas na Venezuela. Desde então, iniciou-se uma série de ações para coibir a prática e preservar ao máximo a vida dessas mulheres que, em busca de um sonho, muitas vezes encontram seus piores pesadelos. Na época, o coordenador jurídico da SBCP, Carlos Michaelis Júnior, se reuniu com a diretoria da SBCP regional Amazonas (SBCP-AM), com a superintendência da Polícia Federal, Ministério Público Federal (MPF), Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) e Conselho Regional de Medicina (CRM-AM) e solicitou a abertura de inquéritos.

"A SBCP já tomou conhecimento de pelo menos 11 óbitos do mês de abril de 2015 até o mesmo mês deste ano, de mulheres residentes em Manaus e mais de cem casos de sequelas em decorrência de procedimentos estéticos realizados na Venezuela.", explicou Michaelis na ocasião.

Esta iniciativa abriu um canal para mulheres que foram vítimas de erro médico em cirurgias plásticas na Venezuela, assim como parentes de mulheres que morreram em decorrência de erros, procurassem a SBCP ou o Ministério Público para realizar denúncias. Alguns dos pacientes ouvidos pela SBCP, afirmaram que há preços "baratos e muito baratos", realizados em ambientes inadequados e sem higiene.

SUSPEITA MACABRA

Em setembro a SBCP se mobilizou novamente após saber de duas mortes envolvendo brasileiras que fizeram cirurgias em Porto Ordaz. Um fato, porém, chamou a atenção: o corpo de uma das vítimas chegou o Brasil sem órgãos internos como coração, pulmões, rins, fígado e intestinos, forte indício de tráfico de órgãos. A família informou que dificultaram o traslado do corpo ao máximo, induzindo a família a solicitar a cremação ou o enterro lá mesmo. Além disso, o IML identificou a colocação indevida de formol no corpo, artifício geralmente utilizado para dificultar a autópsia. O médico que operou ambas as vítimas também não possui formação em cirurgia plástica: é oncologista.

Este acontecimento fez com que a SBCP unisse esforços novamente em prol de uma atitude mais enérgica por parte das autoridades: "A situação está insustentável. Necessitamos envolver o governo e tomar medidas imediatas. Já estamos contatando o Ministro da Justiça para uma audiência. Entre as medidas vamos propor o fechamento da fronteira para as mulheres que saírem para fazer cirurgias plásticas no país vizinho, além de prisão das pessoas que fazem esse aliciamento", explicou Chaves.

Ainda não há comprovação, mas os indícios de relação com o tráfico internacional de órgãos são bastante robustos. Também não há clareza sobre a forma de atuação da quadrilha, mas há suspeitas de que as cirurgias plásticas a preços extremamente baratos possam estar sendo subsidiadas pelas receitas advindas do tráfico de órgãos e servindo como um chamariz para atração das vítimas. "Nós conseguimos captar informações suficientes para demonstrar para o Ministério das Relações Exteriores, para o Ministério da Justiça e todos os órgãos legais que algo errado acontece naquele país", falou Michaelis.