Releases 13/10/2016 - 17:49

"Nem todos se movem pela ganância", disse o deputado português Paulino Ascenção


São Paulo - SP--(DINO - 13 out, 2016) - A Europa tem vários dos mais impressionantes exemplos do sucesso do cooperativismo em todo o mundo. Mas isso não quer dizer, no entanto, que a vida seja fácil. Afinal de contas, as cooperativas podem ser fabulosas para os cooperados e para a sociedade de um país ? mas é péssima para os donos do capital, que querem apenas, por sua própria natureza concentradora, ficar cada vez mais ricos.

Esse embate entre cooperativismo e capitalismo ficou evidente em junho passado, em Lisboa, a capital portuguesa, no debate "Economia e Empresas", realizado na Assembleia da República ? o parlamento português.

O deputado Paulino Ascenção produziu um discurso emblemático sobre essa luta entre a democracia e o lucro, ao se posicionar contra um projeto do governo de inovação e tecnologia, que, segundo ele, "está orientado para o modelo da empresa lucrativa ou capitalista, como se não existissem outros modelos de organização das atividades econômicas".

Ele defendeu o modelo associativo ou cooperativo e deu um exemplo: "O maior grupo econômico do País Basco espanhol, a Corporación Mondragón, detentora da Fagor [conhecida marca de eletrodomésticos, como lava-roupas e fogões], é um conglomerado de cooperativas, nascido em 1956, emprega 74.000 trabalhadores e tem volume de negócios acima dos 3 mil milhões de euros", pontuou o deputado do Bloco de Esquerda, um partido nascido da fusão de outras agremiações nos anos 90. "Nos seus 60 anos de história, ainda não produziu qualquer milionário, mas produz muita riqueza", emendou o parlamentar.

Ele criticou os entraves existentes em Portugal para as cooperativas, que não receberiam os mesmos incentivos do governo que uma empresa tradicional. "Os modelos alternativos para as pessoas organizarem as atividades econômicas e contribuírem para o crescimento devem igualmente ser elegíveis para os programas de incentivo à criação de empresas", afirmou. "É necessário simplificar e desburocratizar a criação e a vida das associações e das cooperativas e deixar de remetê-las para os setores de atividade restritos, como os conexos com as funções sociais do Estado."

Ele afirmou que a liberalização dos mercados tem conduzido a uma "concentração crescente", fazendo surgir grandes empresas "com um poder enorme, quer perante os consumidores, quer perante os fornecedores de pequena dimensão com quem se relacionam.

Ascenção advertiu que os pequenos, como as cooperativas, podem ser facilmente esmagados se não houver uma regulação efetiva. "Os produtores agrícolas, por exemplo, em geral de pequeno porte, sofrem uma chantagem permanente das grandes propriedades e devem ser protegidos pela lei, para sua sobrevivência", afirmou.

"Nem todas as pessoas se movem pela ganância, pela ambição de serem ricas ou patrões, não será o caso provavelmente para a maioria das pessoas", disse o deputado. "Mas isso não faz delas menos criativas ou menos inovadoras, menos empenhadas numa vida melhor para si próprias e para as suas comunidades", acrescentou. "O modelo associativo e cooperativo também responde à inovação e deve ser incentivado numa estratégia de crescimento. Responde até melhor no longo prazo, pois vários estudos mostram que é um modelo mais resiliente às crises, perene, fortemente ancorado no território, não se deslocaliza, cria empregos duradouros e de maior qualidade que o modelo lucrativo ou especulativo de empresa", discursou o deputado.