Releases 07/10/2016 - 16:57

Arie Halpern: disrupturas e vulnerabilidades


(DINO - 07 out, 2016) - Não é preciso ter muita idade para dizer: "Sou do tempo em que a gente sabia de cor o telefone da namorada ou namorado!" Até a chegada dos celulares com suas agendas eletrônicas, o comum era sabermos pelo menos uma dúzia de telefones importantes. Hoje não são raras as pessoas que não sabem o número de seu próprio celular.

Quando os homens da minha geração andavam de cabelo comprido e calça larga, e as mulheres de cabelo curto e minissaia, o Fusca era o rei das ruas. Tão friendly ele era que criou-se a lenda de que nunca parava. Em qualquer esquina se encontrava alguém para fazer um reparo. Quando não, fazia-se uma gambiarra qualquer e o bichinho ia adiante. Desmontar o seu motor e outras partes era diversão de fim de semana para muitos aficionados. Os carros de hoje, com toda a eletrônica que levam a bordo, dependem de equipamentos sofisticados para diagnosticar e resolver problemas. Se tiver a má sorte de perder a chave de um desses carros, esqueça o chaveiro. Será necessário acionar o fabricante para obter uma duplicata da chave supersegura, quatro dias depois.

Deixamos de prestar atenção aos caminhos que fazemos e nos acostumamos a seguir os comandos emitidos pela voz sintetizada do Waze. Quem está na direção do processo? No meu tempo de estudante íamos à biblioteca pesquisar e estudar. Não tínhamos os zilhões de bytes de informação que a internet coloca ao alcance de alguns cliques. É verdade. Mas as pessoas conseguiam manter a atenção fixa no que estavam fazendo (estudo de uma seguradora britânica calculava esse tempo em 12 minutos em 1998 e 5 minutos em 2008).

Trabalhos recentes, patrocinados pela Microsoft, mostram que as pessoas, em média, mantêm a concentração por 8 segundos apenas. Um peixinho de aquário consegue concentrar-se por 9 segundos. E uma pessoa que trabalha em escritório interrompe o que está fazendo 30 vezes em média por hora para consultas ao e-mail, whatsapp e outros aplicativos de mensagens etc.

Entre uma era e outra, nosso modo de vida foi modificado por seguidas disrupturas. Nossa área de contato com o mundo se alargou. Nos tornamos mais expostos, a privacidade tornou-se uma abstração. Passamos a depender das máquinas e dos algoritmos em uma escala difícil de classificar e sobre a qual a imensa maioria evita pensar. Vamos vivendo alegremente sem nos darmos conta das vulnerabilidades que nos espreitam no mundo encantado da tecnologia e das facilidades.

Quer tomar uma banho de realidade? Dê uma zapeada nos debates da Black Hat USA 2016 , uma conferência de hackers em que se discutiram as fragilidades do mundo digital. Difícil dormir em paz quando se descobre que um botão tão banal como «Conectar usando o Facebook» ? que nos aparece quando acessamos um serviço novo ? pode ser uma porta escancarada para a ação de programadores mal-intencionados. Por trás desse botão há um protocolo denomidado OAuth que foi testado por cinco estudiosos da Carnegie Mellon University e um pesquisador da Microsoft. O trabalho, apresentado na Black Hat, concluiu que de 149 aplicações do protocolo, 89 foram mal implementadas, sendo, portanto, vulneráveis a ataques.

Um outro estudo testou, apenas como hipótese, o risco de hackers de hardware assumirem o controle do sistema inteligente de iluminação Philips Hue . Encontrou diversas vulnerabilidades que nenhum consumidor nem de longe suspeitará ao acender, ingenuamente, a luz. Nesse admirável mundo em que já estamos vivendo, convém precaver-se: decorar os números importantes de telefone, prestar atenção aos caminhos e refletir sobre desafios e ameaças que a inovação tecnológica coloca diante de nós.

Website: http://ariehalpern.com.br/